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Falar em pai. É abrir feridas e recordações
É por em mim um ar de tristeza
É acordar dentro velhas emoções
O motivo de não me poder por pão na mesa
Era eu menino quando meu pai morreu
Perguntava por ele à minha mãe
Dizia-me, filho ele está no céu
Ficava pensando porque me quis deixar
Minha mãe dizia
Não filho, o pai não mais vai voltar
Minha mãe chorava
Molhava-me a cara com beijos
Talvez querendo matar saudades dos desejos
Pensando talvez como nos havia de criar
Minha tristeza crescia, vendo-a chorar
Cresci, queria aprender
Mas sem um lápis ou papel para escrever
Mãe não me podia ensinar
Não sabia ler
Meus irmãos ensinaram-me letras
Escrevendo na areia
Contavam-me historias, depois de caldo da ceia
Os meus heróis eram os que venciam o mal
Assim fui crescendo, com a miséria de Portugal
Casei-me tarde, tinha medo de ser pai sem poder
De fazer sentir a meus filhos o que senti
Ou fazer-lhos sofrer o que sofri
Amava, lancei-me na aventura
Em pouco vi que a vida era terrivelmente dura
Por mim, sou pai a valer, seis filhos
Imigrei para os não ver sofrer
Criando-os em liberdade
Agora velho, de meu berço tenho saudade
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